Categorias
Política e Opinião

Distribuição de renda e o paradoxo das loterias no Brasil

Um dos princípios do Desenvolvimento Sustentável é a distribuição de renda de uma maneira uniforme, afinal de contas se uma existência pode desfrutar de uma qualidade de vida mínima, ela passa a ter espaço em sua consciência para se preocupar com qualidade das águas, do ar, transportes e outros fatores importantíssimos para assegurar um planeta minimamente adequado às vida das gerações futuras.

Dessa maneira, acredito que a distribuição de renda deveria um dos princípios norteadores Práticos de nossas instituições governamentais, notadamente dos Poderes Executivos (Presidentes, Governadores e Prefeitos) e Legislativo (Vereadores, Deputados Estaduais, Deputados Federais e Senadores). Aliás, o inciso III do artigo Terceiro de nossa Constituição Federal reza que “constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil… erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais.”

A loteria como um fator concentrador de renda

No entanto, entra ano e sai ano, vejo a ferramenta das loterias sendo usada justamente ao contrário: como concentrador de renda junto aos maiores donos de capital do país.

Vejamos um exemplo atual, em uma manchete do site G1 em 17/02/2020:

“Mega-Sena, concurso 2.234: ninguém acerta e prêmio acumula em R$ 170 milhões”

Em um plano hipótetico, as chances de se acertar as seis dezenas da megasena são, apostando apenas um cartela simples é de 1 em 50.063.860, isto corresponde a 1/50.063.860 = 0,00000002 que corresponde a 0,000002%.

É muita sorte acertar, não é mesmo?

Eu, particularmente, se acertasse a Megasena de 170 milhões sozinho, iria fazer a seguinte divisão do prêmio:

-metade para minha companheira, sobrariam 85 milhões. Depois, uns 5 milhões para familiares próximos, uns cinco milhões para amigos próximos e uns 10 milhões em imóveis no Brasil e na Europa. Restariam 65 milhões. Como eu seria rico, com mais 10 milhões eu decoraria fartamente os imóveis e colocaria um bom automóvel em cada garagem. Restariam ainda 55 milhões de reais.

Sou um péssimo investidor, então colocaria o restante do dinheiro na poupança, a qual me renderia cerca de 200 mil reais ao mês de juros, salvo engano.

Acredito que a maioria das pessoas faria algo semelhante: ajudar a quem se tem mais proximidade, dar-se de presente um pouco de luxo e viver de renda, muita renda.

Interessante notar que, nesta situação hipotética, o dinheiro que estava nas mãos de milhões de pessoas, notadamente de classes populares, foi concentrado – ao final – junto ao governo (cerca de 51%), ao ganhador e aos grandes bancos.

Sim, aos grandes bancos, afinal a maioria das pessoas vai deixar o grande volume do dinheiro investido em uma banco, com uma rentabilidade “baixa”, porém “segura”.

E, com isso, os grande bancos, ótimos investidores profissionais, vão utilizar aquele saldo em conta (arrecadado, lembro, da população) para aumentar seus lucros sempre recordes, ou seja, as loterias são, na verdade, um grande concentrador de riquezas para os percentuais já mais ricos da população.

A loteria como fator de distribuição de renda

Diferentemente, pode-se-ia utilizar o “prêmio da megasena acumulada” como um excelente fator de distribuição de renda.

Imaginemos que a megasena passe a ser a “duesena” e que os ganhadores passem a ser aqueles que acertaram apenas dois números (ou mais, o que importaria seria o mínino de dois acertos).

A probabilidade de acertos para  6 dezenas dentro dos 60 números é de 0,000002%, conforma já fora dito. Para acertar 2 duas dezenas, no entanto, essa taxa cai para 0,06%. No concurso em exemplo, 2234, 13.800 apostas acertaram 4 números, sendo que a probabilidade de acerto de 4 números é de um em 2332, ou 0,043%, acredito que cerca de 20.000 pessoas acertaram duas dezenas no mesmo concurso.

Somente o valor destinado às seis dezenas, para o próximo concursos estimado em R$ 170 milhões, dividido por essas 20.000 pessoas, daria um valor de R$ 8.500,00 para cada pessoa. Se somados os destinados à “quadra” e à “quina”, ele valor subiria bastante.

Porém, ao recebermos R$ 8.500,00 não temos condições de comprar imóveis, fazer super doações ou algo parecido. Neste caso, usaríamos o dinheiro para arrumar o carro, trocar aquele sofá velho, comprar um novo microondas. Alguns abririam uma marcearia pequena no bairro, outros comprariam um carrinho para vender “cachorros-quentes”. Rebocar aquele muro, consertar a calçada.

Não haveria, como pode se ver, dinheiro para investir em aplicaçãoes. Não haveria a possibilidade de “viver de renda”.

No entanto, 20.000 pessoas  teriam recebido esse dinheiro: a economia local iria ser impulsionada, haveria geração de empregos e serviços, a economia seria catapultada para frente.

Semanalmente.

Por isso o paradoxo: se um país apresenta tanta desigualdade em sua distribuição de renda, porque não se utilizar de uma ferramenta fantástica como as loterias para alavancar tal distribuição?

Por que nenhum governo, de Direita, de Esquerda ou de Centro, jamais aventou tal possibilidade? Fica a pergunta, Senhore e Senhoras

Categorias
Política e Opinião

Desenvolvimento Local Sustentável em Micro Agrupamentos Urbanos

Micro agrupamentos urbanos (MA) são “porções menores de interação humana entre grupos familiares com condições sócio econômicas semelhantes”.

Dessa maneira, temos como exemplos de MA os agrupamentos correspondentes a Bairros, Vilas, Condomínios e Trechos de Ruas, por exemplo. Os Condomínios são aglomerados que apresentam condições sui generis em relações aos outros MA, pois são entidades privadas, de domínio e uso particular, as quais seguem regras de administração próprias (convenção coletiva) e regras jurídicas específicas dos condomínios (código civil) e que, ainda sendo de propriedade privada, muito se beneficiam da aplicação de Princípios da Administração Pública, mormente os relativos às Transparência e Responsabilidade de Administradores.

Atualmente, desenvolvemos um trabalho de desenho e aplicação de modelos de administração pública/privada que premiem sistemas de Desenvolvimento Local Sustentável, sob a óptica Ambiental, Antropológica, Contábil, Social e Publicitária, sem nos desguarnecer dos primados das ordens Jurídica e Moral.

Em breve resumo, são bases da presente empreita:

– Óptica Ambiental: o meio ambiente em harmonia com o desenvolvimento humano;

– Óptica Antroplógica: quem é o elemento humano inserido nesse meio ambiente e quais suas necessidades;

– Óptica Contábil: quais os valores patrimoniais intrínsecos a elementos construtivos, históricos e acidentes geográficos e como mensurá-los;

– Óptica Social: quais são os valores sociais inerentes às comunidades impactadas;

– Óptica Publicitária: comunicar de maneira eficiente a importância de cada projeto objetivando apoio, fixar na população os valores positivos e conquistas, repudiando estímulos destrutivos e desagregadores.

Apliquei o  presente estudo em uma MAs Condomínio de agosto de 2019 a agosto de 2020, com resultados muito interessantes.

Aos interessados no assunto: tom@saomichel.com.br

Categorias
Política e Opinião

No Brasil, o Desenvolvimento sustentável é inviabilizado de maneira proposital pelas políticas públicas.

Segundo a WWF[1], desenvolvimento sustentável ” é o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro.”

Mas será que, para início de conversa,  suprimos enquanto espécie ao menos as necessidades da geração atual?

Parece que não, pois segundo a Organização das Nações Unidas[2], 821 milhões de pessoas passaram fome no ano de 2018.  Transferindo nosso olhar para o Brasil, a situação não é muito diferente: segundo a ONU, 5 milhões de pessoas passaram fome em nosso país[3] no ano de 2018.

Portanto, a definição tradicional sobre o que é sustentabilidade empaca no primeiro olhar. Como pensar em um protocolo para gerações futuras se temos em nossas mãos uma geração atual literalmente morrendo de fome? (E sabemos que “sustentabilidade” não se aplica apenas às necessidades alimentares, é claro…)

E o que explica uma, globalmente, uma civilização ativa há centenas de anos atingir níveis incríveis de desenvolvimento tecnológico (como por exemplo enviar sondas para além de nosso sistema solar) mas não conseguir propiciar condições mínimas de qualidade de vida para si mesma? Localmente, possuirmos abismos de renda diferenciando Regiões, Estados e Municípios ignorando direcionamentos legais fundamentais como a própria Constituição do Brasil?

Falemos, por hora, do Brasil.

No Brasil, desde sempre, as políticas públicas brasileiras parecem estar travadas em ciclos de ineficiência programada e projetadas para manutenção do establishment.

Na colônia e no Império, os ciclos econômicos se aproveitaram de hordas de mão de obra barata e da exaustão das riquezas natuarais sem a mínima preocupação com futuro do país ou dos indivíduos. Depois, com o advento da República, nada mudou.

No século XVI, a invasão do território Brasileiro premiou a extração de pau-brasil através do escambo com os moradores locais. Em seguida, após 1530 temos a implantação das Capitanias Hereditárias, dividindo a colônia para a exploração preferencial da Cana de Açúcar com toda sua produção exportada para a Europa. Mineração no século XVII,café no século XIX: a história de não-planejamento sempre se repetia: visava-se o momento e a manutenção da riqueza daqueles que se alteravam no poder.

O século XX trouxe uma série de novidades ao cenário humano como a a ampliação da industrialização, as primeiras previdências sociais criadas pelo Estado, o pensamento Marxista, a luta de classes, a primeira grande guerra, entre outros marcos de nossa civilização. Os eventos deflagrados tiveram ampla repercussão no Brasil, onde diversos elementos mesclados desaguam na revolução de 30. A partir dali a população Brasileira passa a ser tutelada pelo Estado, “não precisando” mais lutar por seu espaço. Passa-se a doutrinação do “povo pacífico e ordeiro”, massa de manobra organizada que se auto replica durante o passar dos anos.

Não está a se falar aqui da eficiência – ou não – das políticas públicas de tal período. É consabido que Getúlio tirou o Brasil do mundo agrário e o colocou no caminho da industrialização. É fato a evolução da administração pública patrimonialista para a administração pública burocrática.

Porém, ao se doutrinar uma nação para o caminho do não questionamento foi aberta uma porta para a criação de povo sem espírito de pertencimento, sem ânimos de questionamento, sem disposição para a defesa de seus direitos mínimos de existência.

Ao se criar uma população que ignora cultura – em suas instância básicas, não aprendendo a ler, interpretar e pensar – e a mantendo ocupada em obter o sustento mínimo (sem sucesso efetivo, pois sempre houve fome no Brasil), nossas políticas públicas mantiveram uma imensa massa de manobra política para usar e abusar, quer seja por políticas assistencialistas, quer seja por suborno explícito na época de eleições ou por meio de manipulações psicológicas.

Essas massas não geram , pois, um ambiente de sustentabilidade para si mesmas pois não sabem o que podem ter de benefícios e melhoria em sua qualidade de vida (não conhecem nada diferente daquilo); não entendem que estão sobrevivendo em condições péssimas (pois foram treinadas para sobreviver mal); não são unidas (pois as “políticas públicas” não têm interesse em populações que se ajudem) e não se acreditam capazes de mudar sua realidade (o resultado esperado, passividade e acomodação).

Dessa maneira, verificamos desde já que, localmente (Brasil), o desenvolvimento sustentável é inviabilizado de maneira proposital pelas políticas públicas já em sua primeira etapa, no suprimento das necessidades da geração atual.


[1] Disponível em https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/questoes_ambientais/desenvolvimento_sustentavel/

[2] Disponível em http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2019-07/mais-de-821-milhoes-de-pessoas-no-mundo-passaram-fome-em-2018

[3] Disponível em https://envolverde.cartacapital.com.br/invisiveis-e-ignorados-52-milhoes-de-pessoas-passam-fome-no-brasil/ e https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/07/apesar-de-menor-fome-ainda-afeta-o-brasil-aponta-orgao-da-onu.shtml

Categorias
Política e Opinião

Escravidão Moderna

Ao estudar história, sempre me perguntei : “porque os escravos se mantinham escravos se eram muito mais numerosos que os seus “donos”?

Acreditei, em princípio, que devia se tratar do medo. O medo imposto pela violência, pelo porrete, pela posse de equipamentos que ampliam o poder de opressão. E era verdade, a manutenção de um número enorme de pessoas sob o domínio absoluto de um pequeno grupo de dava por meio da violência.

No Contrato Social,  livro I, Rosseau cita que “Aristóteles dissera que os homens em absoluto não são naturalmente iguais, mas nascem uns destinados à escravidão e outros à dominação”.

Confesso que não sabia que Aristóteles assim o pensava, obrigado Jean Jacques.

E Rosseau prossegue: “Aristóteles tinha razão, mas tomava o efeito pela causa. Todo homem nascido na escravidão, nasce para ela: nada mais certo. Os escravos tudo perdem sob os seus grilhões, até o desejo de escapar deles; amam o cativeiro como os companheiros de Ulisses amavam o seu embrutecimento. Se há, pois, escravos pela natureza, é porque houve escravos contra a natureza. A Força fez os primeiros Escravos, a sua covardia os perpetuou”.

Triste fato, acredito eu, mais um escravo.

Universalmente a escravidão oficial acabou: sabem-se de casos espalhados pelo mundo, tráfico de pessoas, escravos de guerras, etc, mas oficialmente a instituição escravidão não é admitia no “mundo civilizado” tal como era até o século XIX.

Conforme reza o artigo III da Declaração dos Direitos Humanos, “todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.”

Porém, já paramos para pensar em como se procedeu essa transição? De que maneira a escravidão passou de um hábito natural e justificado da sociedade civilizada para uma prática horrível e inumana?

De maneira macro, meus amigos, universalmente, houve um movimento histórico – ao meu ver lento – que propiciou essa transição. Aprendi no colégio que, no Brasil – por exemplo – o interesse da Inglaterra em acabar com a escravidão nos trópicos se devia mais ao crescimento de um mercado consumidor de seus produtos industrializados do que ao interesse de ver um mundo mais justo. Há controvérsias: Sempre haverá.

No Brasil, a escravidão acabou através de uma lei. Houve vários movimentos e influência política para tanto – também – mas o encerramento da questão foi uma lei.

Um de meus professores de colégio, Hipólito, dizia que o processo no haiti fora diferente: “antes da revolução no Haiti havia 90% de negros, 5% de mulatos e 5% de brancos. Após a revolução, ficaram 1% de mulatos e 99% de negros…”. Pelo visto lá, se verdade, houve realmente uma ruptura abrupta.

Nos Estados Unidos tivemos a Guerra da Secessão, onde o movimento de libertação dos escravo se misturou as outras questões políticas. Foi um período de muita violência.

E, claro, nestes casos cito apenas a escravidão da raça negra. Antes tivemos a prática da escravidão na Grécia e na Roma antiga, onde para ser escravo o fator da cor da pele era insignificante.

Mas, voltando ao pronto de transição, vimos que em locais determinados – como no exemplo do Haiti – reviravoltas violentas provocadas pela massa sufocada fizeram uma revolução libertadora. Percebemos que em outras partes do planeta – em princípio na maioria do planeta – essa transição ocorreu de maneira menos abrupta, onde citei o exemplo do Brasil.

Assim, o escravo que trabalhava sob a ameaça da vara, por casa, comida, vestuário e proteção passou a ser livre.

Livre, ele passou a trabalhar por uma renda. Esta renda lhe “permitia” pagar por casa, comida, vestuário. A proteção seria fornecida pelo Estado de Direito. Se ele não obtivesse a renda, lhe seria reservada a vida nas ruas, sobrevivendo através da mendicância.

Oficialmente e atualmente a escravidão – como já foi dito aqui – não é mais um instituto aceito. Hoje somos todos, no mundo dito civilizado, pessoas livres.

Somo pessoas livres que trabalhamos por um salário. Esse salário, no entanto, para a maioria esmagadora das pessoas é insuficiente para lhes garantir uma casa digna, comida suficiente para seu sustento e vestuário simples. Sempre lhes falta. Sempre estão devendo.

Eu pergunto: qual a diferença dessa massa infinita de pessoas para um escravo? O patrão não detém o poder de mando quase absoluto, alguém poder-me-ia responder. Mas qual a liberdade de escolha entre sair de um emprego com um patrão opressor e ficar à mercê do mercado de trabalho onde desempregados vagueiam por anos?

Realmente existe essa escolha?

Quantas pessoas você conhece, amigo leitor, que se mantém no mesmo trabalho há anos simplesmente por medo de não encontrar outro trabalho? Isso é não ter escolha.

Nós temos, hoje, o dito empreendedorismo, a livre-iniciativa, a qual inclusive está na Constituição do Brasil como um dos fundamentos de nossa República.

A partir da dela temos milhares de pessoas que se dedicam a terem pequenos e micro negócios. Segundo o Sebrae, 99% das empresas do Brasil são micro e pequenas empresas (MPE). As MPEs respondem por 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado (16,1 milhões).

Interessante saber que a grande maioria dessas empresas pequenas não conseguem sobreviver à custas de suas próprias economias por mais de dois meses. Não existe para elas o que em contabilidade é chamada “provisão” (para prejuízos, crises, eventos desfavoráveis, devedores duvidosos, etc.). Essas empresas trabalham hoje, recebem amanhã e imediatamente pagam seus funcionários. Os “empresários” tiram suas despesas do mês – usualmente não suficientes – e “bola para frente”, sempre esperando um dia melhor, sempre esperando o momento da “virada”.

Quantas donos de pequenas empresas, amigo leitor, você conhece que vivem essa realidade do dia a dia? De “vender o almoço para pagar a janta?”

Se essas empresas param, elas quebram. Se ocorre qualquer evento diferente, elas quebram. Se elas quebram, seus funcionários…quebram.

Ora, eu pergunto: a partir do momento em que uma pessoa é obrigada a trabalhar dentro de um estreito limite, por casa, comida e vestuário, caso contrário ela “quebra”, ela não seria um escravo?

Pois entendemos o homem livre como o que? Alguém que pode circular “livremente” – porque há fronteiras – mas que não pode sequer ficar três meses sem trabalhar que vai ficar sem comida, sem teto, sem higiene, sem respeito, sem humanidade?

Sim, por que a diferença entre um trabalhador que mora em uma casa simples alugada e um morador de rua, são três meses sem salário e uma ação de despejo.

E depois de dois meses morando nas ruas, meus amigos, perde-se a humanidade e o respeito. Os que duvidam de mim, entrevistem quem vive nas ruas.

Trabalhamos – operários, pequenos empresários, funcionários públicos de baixo escalão, entre outros – por teto, comida e roupa, mensalmente.

A diferença entre nós e os antigos modelos de escravos é a doutrinação diária que recebemos desde o nosso nascimento, a doutrinação que fala que somos livres mas nos impõe condições de vida limítrofes: não há segurança pública, pois não há orçamento para tanto. Não há saúde pública, pois não há verbas para tanto. Não há lazer público, porque não há planejamento urbano. Não há esgotos e fornecimento de água potável para todos, porque a “população cresceu muito rápido” e foi “impossível coordenar o crescimento urbano”.

A doutrinação diária nos faz aceitar tudo isso com normalidade. Uma cadeia projetada para 1000 presos ser ocupada por 3000 passou a ser um fato natural para nós. Uma consulta em hospital público ser marcada para seis meses depois é outro fato natural para nós: através da doutrinação, aceitamos o inaceitável.

A semelhança entre nós, escravos modernos e os antigos escravos é que vivemos sob o domínio do medo. Antes, era o medo da violência física. Hoje, o medo de viver nas ruas, o medo da fome, o medo de não fazer parte de um sistema que nos drena, dia a dia, nossa própria vida.

Somos escravos, até que alguém me prove o contrário.

Categorias
leituras rapidas Política e Opinião

O domínio do porrete

Ora, se você possuir um porrete e souber usá-lo, vai exercer poder sobre várias outras pessoas. Essa é uma verdade clássica há milhares de anos.

Se vc possuir a pessoa que segura o porrete, você consegue exercer o poder sobre uma maior quantidade de pessoas, sendo que o preço de tal aumento de influência é apenas propiciar uma contrapartida melhor para o braço do porrete.

E se você possuir vários “braços de porrete”?

Ora, sua influência será proporcional à quantidade de braços que você terá condições de subsidiar.

E assim, o poder econômico é o dono atual do porrete.

Categorias
Compliance Social

O que é Desenvolvimento Local Sustentável (DLS)

Em nossas palavras, “Desenvolvimento Local Sustentável é a manutenção da existência humana com qualidades mínimas de vida, as quais garantam sensação de pertencimento e realização pessoal no meio social em que se atua, ao mesmo tempo em que se prepara um ambiente com melhores condições de vida para as futuras gerações”.

Manutenção da existência humana com qualidades mínimas de vida

Conforme tenho afirmado em meus escritos, considero que o meio ambiente, quer seja urbano, rural ou natural, precisa oferecer condições de vida satisfatórias para os seres viventes no presente, antes de oferecer condições ideais para as futuras gerações. Entendam, no entanto, que não defendo com essa afirmação a queima desenfreada de combustíveis fósseis para manter a civilização atual, por exemplo. Defendo que existem inúmeras necessidades locais a serem retrabalhadas de maneira que a população atual atinja patamares mínimos de qualidade de vida, para que possa pensar no mundo futuro.

É possível pedir a um ser humano que deixe de trabalhar na empresa que polui o rio onde seus filhos se banham, mas dificilmente ele optará por premiar o meio ambiente e deixar a mesa de sua casa vazia.

Porque mantemos as concentrações de populações nas grandes cidades? Porque não temos políticas reais de desenvolvimento econômico para as cidades pequenas? Porque não relembramos às pessoas que podem criar galinhas em casa para obter ovos saudáveis? Porque não as relembramos que podem plantar vegetais como chuchu, tomates e abobrinhas para aliviar a pressão salarial das despesas domésticas?

São políticas públicas óbvias, consabidas, repetidas com assente por todos que ouvem (“minha avó criava galinhas, nunca faltavam ovos”) que simplesmente são abandonadas, esquecidas.

Sensação de pertencimento e realização pessoal no meio social em que se atua

Muitos definem a Depressão, doença, como o “Mal do século XXI”. Filhos da internet, os Smartphones e as Redes Sociais são, ao meu ver, invenções fantásticas, sobre-humanas e, ao mesmo tempo, uma fonte de ansiedade e depressão inesgotável. Em que pesem suas utilidades como integradores e facilitadores de relações, a forma como foram – e são – utilizadas tornaram-se um aríete contra um senso de paz interior necessário para a grande maioria das pessoas.

Observem – na grande maioria das pessoas – a necessidade de se olhar o smartphone em intervalos de tempo cada vez menores, a fim verificar  novas mensagens de whats app, novas atualizações de instagran ou novas curtidas no já caduco facebook. Essa necessidade de checagem constante causa um aumento da ansiedade, transformando um instrumento criado para “facilitar a sua vida” em um algoz torturador que exige a sua interação a cada dez minutos.

Não bastasse o mecanismo acima descrito (veja a reportagem da Revista Superinteressante: Smartphone, no novo cigarro), as redes sociais trazem todos os nossos amigos e conhecidos sempre em constante alegria, sempre curtindo a vida, sempre de bem com os relacionamentos, sempre ativos em suas atividades profissionais, enquanto que nós – observadores de tanta felicidade – temos problemas com nossos relacionamentos, chefes, comunidades e nem sempre estamos tão ativos no trabalho.

Não há, nestas situações, portanto, uma sensação real de pertencimento social que pode-se observar na rotina de grupos reais de comunidades, hoje em evidente estágio de extinção.

Vejamos, por exemplo a o trecho da Dissertação de Mestrado da Sra. Luclécia Cristina Morais da Silva, PPGA, UFPE, onde ela cita a vida em uma comunidade de pescadores em Sirinhaém, no Estado de Pernambuco:

“Na atividade pesqueira existe uma intrínseca relação com o mar e/ou estuário, rio, além de um sentimento com o território que envolve valores sagrados e ampla intimidade com o espaço de trabalho/vida, onde o mar-de-dentro e o mar-de-fora se constitui como lugares aquáticos e o trabalho pesqueiro reflete o desdobramento dessa territorialidade ao conferir-lhes pertencimento (MALDONADO, 1994). Este pertencimento ao ambiente marinho-estuarino é o que tem permitido resistir à subsunção real ao capitalismo GODELIER (1981), pois, segundo MOURA (1988), apesar do processo de diferenciação social, internamente os pescadores permanecem identificáveis como tais. Para FERREIRA (1995), apesar da força do capital, não há uma simples transformação proletarizada, pois, “seu mundo não se reduz ao vinculo empregatício, mas procuram e constroem espaços de adaptações entre as suas perspectivas e projetos e o mercado”, ou seja, “sua reprodução não se explica apenas pela subordinação ao capital, mas pela própria capacidade de resistência e adaptação” (WANDERLEY, 2011).”

in SILVA, Luclécia Cristina Morais da. Pesca artesanal no Litoral Sul de PE : dinâmicas identitárias e territoriais.  Dissertação de Mestrado, UFPE. 2014.):

No trabalho citado (recomendo a leitura) explana-se que os pescadores atuam de acordo com as maré, de acordo com o vento, de acordo com o tempo. Nos tempos que antecedem as idas ao mar, os pescadores conversam muito, enquanto prepararam as redes e os barcos. Quando não há o que preparar e há necessidade de esperar o momento ideal de partida, simplesmente conversam.

Ora, neste contato REAL não há somente sorrisos, pois expostos que estão à mesma realidade e aos mesmos esforços, compartilham dos mesmos medos, anseios e sucessos, o que dá a essas comunidades um sensação real de pertencimento que, como já disse, extingue-se nas sociedades humanas urbanas atuais.

Preparar um ambiente com melhores condições de vida para as futuras gerações

Uma existência que não conhece a fome, que pode de deslocar com bicicletas até o seu local de trabalho, que pode complementar suas necessidades de alimento com pequenas produções próprias, que tenha segurança social, é uma existência com qualidades mínimas de vida.

Uma existência que se sinta pertencente a um grupo, que dentro desse grupo perceba que seus problemas e sucessos fazem parte do roteiro da vida de todos, que tenha consciência de que o seu trabalho significa mais uma parte somada a fazer diferença na realização da sociedade, é uma existência repleta de sentido.

Sanadas as condições básicas, essa existência passa a ter condições de pensar além da “barriga vazia”, da “conta da mercearia”, do tráfego caótico que a impede de chegar na hora ao serviço, entre outros pontos de sustentação psicológica da vida,  podendo ser estimulada então, a pensar sobre demasiada queima de combustíveis fósseis por nossa civilização.

Categorias
Compliance Social

O simulacro da realidade anestesiada (ou o menino que fingia se afogar)

Baudrillard disse que para o ser humano viver em seu simulacro de realidade é necessário que a ele sejam fornecidas gotas de realidade, doses homeopáticas nas mídias de massa (mass medias) que permitam o indivíduo “saber” o que está acontecendo do outro lado do mundo ou na própria esquina de sua casa, mas sem ter o verdadeiro contato, que causa o sofrimento real.

Dessa maneira, o indivíduo apercebe-se da realidade, mas não a vive realmente. Ele sabe que o sofrimento é, na verdade, sempre alheio. Tais doses homeopáticas agem como uma vacina, a “letalidade diminuída” o deixa imune a quaisquer acontecimentos reais.

Vivemos, hoje, por conta do coronavirus, os efeitos menos esperados dessa vacinação: o indivíduo não consegue perceber a letalidade real e próxima apresentada no espetáculo midiático da pandemia, palavra, aliás, que batizou vários filmes e documentários anteriores, sendo em sua própria carga emocional como aquele algo terrível que mata milhões, mas – no final – há um salvação.

Mas há algum filme cujo final represente a realidade ou todos apresentam a visão idealizada de “tudo vai dar certo”?

Tal qual o menino que fingia se afogar e que um dia morreu por estar realmente se afogando – e ninguém o socorreu – nossa sociedade afoga-se em meio a um maremoto viral em um continente, mas os expectadores dos outros continentes parecem achar que só é fingimento.

E se não for? Quantos de nós terão que partir para que saíamos da passividade? Tenho a impressão que saberemos em breve, infelizmente.